"A tua palavra é lâmpada que ilumina meus passos e luz que clareia o meu caminho" Ps 119:105
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- Podado ou Secando? Lições tiradas da Horta de Ervas
Eu cultivo uma horta no meu jardim, repleto das minhas ervas favoritas. Tenho tomilho, alecrim, manjericão, lavanda e salsa. Mas a minha favorita absoluta é o endro. Ah, como eu amo endro! Quando eu morava nos Estados Unidos, era tão fácil de encontrar. Eu sempre tinha bastante estocado na geladeira. Mas onde moro agora, não é fácil de achar nos mercados, felizmente após um longo tempo de procura, encontrei as sementes e comecei a cultivar. Quando finalmente consegui cultivar o meu próprio endro, pensei comigo mesma: “Nunca vou ficar sem.” Como observo o meu jardim todos os dias, noto cada centímetro de crescimento. O endro começou pequeno, frágil, mas logo cresceu bem alto, e eu fiquei encantada com ele. Era tão lindo de olhar que eu evitava podar ou até colher algumas folhas para usar. Então, para a minha surpresa, o que vinha crescendo tão forte e bonito foi, aos poucos, perdendo a sua cor vibrante. Hoje, a única coisa que restou dele é um caule seco e nu. Quando olho para aquele vaso, tudo o que resta é a lembrança do que ele foi um dia. Eu poderia tentar atribuir à falta de água, ou até ao excesso de irrigação, mas a única planta morrendo é o endro. O contraste entre os vasos verdes e viçosos ao redor e o endro seco salta aos olhos. Então, perguntei a mim mesma: por quê? E quase imediatamente, Deus respondeu ao meu coração e me ensinou uma lição vital. É sábio observar a criação de Deus e refletir sobre a Sua verdade por meio dela. (veja Jó 12:7-8; Romanos 1:20) A primeira passagem das Escrituras que inundou a minha mente foi o Salmo 119:96: “A toda perfeição vejo um limite, mas os Teus mandamentos são ilimitados.” Para uma perfeccionista, pode ser difícil aceitar que até as coisas boas têm os seus limites. Olhando para aquela erva tão simples, lembrei que o esplendor terreno não dura para sempre. A única coisa perfeita e sem limites é a Palavra de Deus, que permanece para sempre. A segunda percepção foi ainda mais funda na minha alma. Aquela planta de endro poderia ter permanecido produtiva por mais tempo se eu tivesse continuado a colher as suas folhas e a podar o seu crescimento. Essa percepção me levou às palavras de Jesus em João 15: “Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o Jardineiro. Ele corta todo ramo em mim que não dá fruto, enquanto todo ramo que dá fruto, Ele poda, para que dê ainda mais fruto.” (Jo 15:1-2) Foi um grande erro não podar o meu endro. Da mesma forma, é um grande erro reter o fruto espiritual que Deus produz em nossas vidas. Neste dia fui lembrada de que, à medida que cresço, preciso estar disposta a compartilhar algumas “folhas”, a derramar os meus dons e frutos para que outros possam provar o que Deus fez crescer dentro de mim. Caso contrário, vou estagnar, deixar de receber e, por fim, murchar. Também fui lembrada de que a poda é necessária, e que, se me sinto travada ou até seca, pode ser porque estou me agarrando com muita força às folhas velhas em vez de permitir que o meu Jardineiro me pode. Então surge outra pergunta: Mas Deus não é soberano? Com certeza é. Mas não nos esqueçamos de que somos cooperadores dele (veja 1 Coríntios 3:6-9) e de que algumas coisas são responsabilidade nossa, como derramar aquilo que recebemos pela graça. Através da sua soberania, Ele mesmo não pode simplesmente fazer a poda? Certamente pode, e faz. E isso me levou à terceira lição: o meu Jardineiro pode já estar fazendo o Seu trabalho de poda. É por isso que existem estações em que me sinto limitada, contida ou lenta na minha caminhada com Ele. Agora, se o mesmo sentimento pode refletir duas realidades diferentes, a minha pergunta é: como distinguir entre estar sendo podada e estar secando lentamente por negligência espiritual? A resposta estava diante dos meus olhos, no mesmo texto. Mais adiante, Jesus disse: “Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês”, e em seguida disse: “sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.” (João 15:4-5) Quando me apego à Palavra de Deus e permaneço Nele, posso esperar poda, mas também posso esperar uma abundância de fruto como consequência. No entanto, se eu não permanecer nele quando não consigo ver o fruto, a ausência de fruto pode deixar de ser sazonal e significar que estou secando espiritualmente. Como o Senhor disse certa vez ao rei Acaz, por meio do profeta Isaías: “Se vocês não permanecerem firmes na fé, de modo algum permanecerão.” (Is 7:9) Se eu não permanecer firme e ancorada em Cristo durante os momentos de poda (que costumam ser dolorosos), vou acabar como o meu endro: de pé, alta, talvez carregando as silhuetas secas de um esplendor passado, mas sem vida nova e sem fruto. Não retenhamos aquilo que Deus depositou em nós. Não nos apeguemos a conquistas passadas, ao reconhecimento ou às memórias de glórias que já se foram. Mantenhamo-nos firmes na Sua palavra e permaneçamos nele. Mesmo quando a estação parecer árida e seca, podemos descansar com a certeza de que Ele está simplesmente nos podando e, no Seu tempo perfeito, floresceremos de novo. As circunstâncias mudarão, as estações passarão, o esplendor humano se desvanecerá. Como Isaías 40:8 nos lembra: “A relva murcha e as flores caem, mas a palavra de Deus permanece para sempre.” Assim como suas promessas, e aqui estão algumas delas: “Mas aqueles que esperam no Senhor renovarão as suas forças.” (Isaías 40:31) “Pelo menos há esperança para a árvore: se for cortada, ela brotará outra vez, e os seus novos brotos não faltarão.” (Jó 14:7) Nem sempre veremos grandes coisas por fora durante períodos de poda, mas certamente aqueles que permanecem e esperam estão produzindo frutos de confiança e perseverança, que serão muito valorizados por toda a eternidade.
- O Evangelho em Cores: Por que precisamos do Pentateuco?
A mesa estava posta, as Bíblias prontas, para o nosso primeiro encontro de pequeno grupo. Como a maioria de nós era cristã por muito tempo, escolhi começar pelo Evangelho de Lucas, minha esperança era ver o Espírito Santo em ação já nas primeiras páginas. Mas uma das mulheres do grupo, cristã desde a infância, travou quase imediatamente. Ela entendia que Jesus havia morrido pelos seus pecados, mas o longo processo de redenção que culminou em seu nascimento a deixava perdida. As genealogias, as profecias, a espera, tudo parecia um quebra-cabeça cuja caixa ela nunca tinha recebido. Aquela situação me fez mudar de plano. Ao invés de seguir adiante em Lucas, voltamos até o começo, em Gênesis, e percorremos os quatro livros que o seguem: o Pentateuco, também chamado de Torá. Como bem coloca Ian Vaillancourt, sem o Pentateuco não haveria primeiro ato no grande drama.[1] Ele é o fundamento para compreendermos como o mundo veio a existir, o nosso lugar dentro dele, por que somos inclinados ao pecado, o anseio em nosso coração por algo mais, e a promessa de Deus de intervir em nosso favor.[2] Para alguém como minha amiga, o Pentateuco ajuda a passar de uma compreensão em preto e branco da mensagem da Bíblia para uma visão do evangelho em cores resplandecentes.[3] Composto por cinco volumes, muitos temas podem ser identificados neles, mas há um que atravessa todos eles: a redenção é um dos temas mais proeminentes do Pentateuco, e se conecta diretamente ao Evangelho e ao restante da Bíblia. A Bíblia, de Gênesis ao Apocalipse conta a história de um Deus que criou o mundo tendo a humanidade como seu ponto culminante, de um povo que escolheu se rebelar contra o seu Criador, e de um Deus que respondeu com a promessa de resgatar sua criação.[4] Uma Palavra que Perdeu seu Peso Para a maioria de nós, a palavra redenção já não carrega todo o seu peso bíblico, isso se dá em parte por causa do tempo entre nós e os autores bíblicos. Mas quando os escritores do Antigo Testamento queriam descrever o relacionamento entre Yahweh e o seu povo, redenção era a palavra escolhida.[5] Ela nunca se referiu apenas ao livramento da escravidão do pecado, mas também com relacionamento. Sandra Richter explica assim: a redenção era o meio pelo qual um membro perdido da família era restaurado a um lugar de segurança dentro do círculo de parentesco. Essa era a responsabilidade do patriarca, sendo a rede de segurança da sociedade de Israel, e esse é o cenário da história em que nós, crentes do Novo Testamento, hoje nos encontramos.[6] O Pentateuco é, de muitas formas, o livro da redenção, a introdução ao que Deus tem em mente para toda a criação.[7] Dá para acompanhar esse fio condutor em quase todas as características centrais desses cinco livros. Aqui estão algumas delas: 1. A aliança - Quatro das seis alianças do Antigo Testamento estão no Pentateuco, e cada uma reforça o compromisso de Deus com o seu povo, impulsionando a história da redenção adiante.[8] Deus escolheu a aliança como o veículo para comunicar o seu plano de redenção.[9] 2. As genealogias - as partes que mais somos tentados a pular. Elas estão ali por um motivo: traçam uma linhagem de redenção, garantindo que as promessas de Deus passem fielmente de uma geração a outra. Essa “genealogia da redenção” aponta para o cumprimento final da redenção de Deus em Cristo. Como observa Vaillancourt, os elos com Jesus como a descendência da mulher são claríssimos — ele é aquele em quem a promessa de Gênesis 3:15 encontra seu cumprimento definitivo.[10] 3. O êxodo - a maior história de redenção do Antigo Testamento. Vaillancourt argumenta que o êxodo está para o Antigo Testamento assim como o evento cruz-ressurreição está para o Novo Testamento.[11] Eu iria além e o chamaria de projeção antecipada do evangelho. A restauração de fato começou no Antigo Testamento, sim, mas foi somente na cruz e na ressurreição que o verdadeiro segundo êxodo, maior, melhor e definitivo se cumpriu.[12] 4. A terra - a promessa da terra também faz parte do plano redentor de Deus, e é mais do que agrícola: ela aponta para uma intimidade restaurada entre Deus e o seu povo.[13] T. Desmond Alexander observa que Canaã ecoa o Jardim do Éden , um lugar onde as pessoas são chamadas a desfrutar da presença e da comunhão com Deus.[14] 5. A lei - os Dez Mandamentos e o livro da aliança apontam para uma mesma direção: como viver a vida como alguém já redimido por Yahweh. As exigências da lei chegam dentro de um contexto de graça, e não antes dele.[15] Essa ordem importa , a lei vem depois da redenção, como uma espécie de manual de instruções para viver dentro dessa nova realidade. Deus diz a Moisés: “Vocês viram o que fiz ao Egito e como os transportei sobre asas de águias e os trouxe para junto de mim. Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.”[16] 6. O tabernáculo - estudiosos apontam que até a entrada voltada para o leste não é acidental — ela sinaliza um retorno ao Éden, um retorno à presença de Yahweh. O tabernáculo foi um primeiro passo em direção ao objetivo final da redenção: o povo de Deus habitando, sem obstáculos, em sua presença para sempre.[17] Um Livro Inacabado Muito mais poderia ser dito, cada história do Pentateuco nos dá mais um vislumbre do plano redentor de Deus. Mas mesmo essa visão panorâmica já mostra algo importante: como observa Alexander, o Pentateuco termina inacabado,[18] porque o plano redentor continua se desdobrando por todo o cânon. Como minha amiga naquele grupo pequeno, muitos de nós perdemos a profundidade do evangelho porque nunca percebemos a história maior que o Pentateuco introduz. É um pouco como entrar numa sala de cinema vinte minutos antes do filme terminar, ainda dá para apreciar as cenas diante de si, mas algo no desfecho não se encaixa direito, porque faltou o começo. Por isso, faço das palavras de Vaillancourt o meu convite final: leiam profundamente essa porção da Bíblia, façam suas próprias conexões com Cristo e com a vida cristã, e mergulhem nessa gloriosa e transformadora porção fundamental da preciosa palavra de Deus.[19] Referências 1. Ian J. Vaillancourt, The Dawning of Redemption: The Story of the Pentateuch and the Hope of the Gospel(Wheaton, IL: Crossway, 2022), 18. 2. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 18. 3. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 17. 4. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 19. 5. Sandra L. Richter, The Epic of Eden: A Christian Entry into the Old Testament (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2008), 45. 6. Richter, The Epic of Eden, 45. 7. Ian J. Vaillancourt, “10 Things You Should Know about the Pentateuch,” Crossway, 6 de novembro de 2022. 8. Vaillancourt, “10 Things You Should Know about the Pentateuch.” 9. Richter, The Epic of Eden, 82. 10. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 86. 11. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 112. 12. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 128. 13. J.G. Millar, “Land,” em New Dictionary of Biblical Theology, ed. T. Desmond Alexander e Brian S. Rosner (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), 623. 14. T. Desmond Alexander, From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2022), 65. 15. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 131. 16. Êxodo 19:4-6, Nova Versão Internacional (NVI). 17. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 154. 18. Alexander, From Paradise to the Promised Land, 5. 19. Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 207.
- Por Que Ir Além do Texto Importa (E Como Chegar Lá Sem se tornar um seminarista)
Ler a Bíblia é um dos maiores privilégios que temos. Mas às vezes esbarramos em alguns obstáculos pelo caminho, e nosso entendimento fica comprometido. Não porque o evangelho seja complicado, mas porque nos falta uma peça: a língua, a forma literária ou o contexto histórico por trás da passagem lida. Isso não significa que você precisa de um diploma de seminário para entender o evangelho. Você não precisa. A mensagem do evangelho é simples, e ela alcança qualquer pessoa, incluindo o iletrado. Mas se você quer se tornar um leitor melhor da Bíblia, e se você quer ser mais fiel à mensagem por trás das palavras, fazer essa pergunta simples pode ajudar: E se eu tivesse vivido quando isso foi escrito? Como a cultura ao meu redor teria moldado a forma como eu ouviria essa palavra? A ideia por trás do “Além do texto” Não temos uma máquina do tempo para voltar e ver com nossos próprios olhos. Então, nos apoiamos na história para nos dar ao menos um vislumbre de como o texto foi entendido originalmente. A mensagem em si não muda, ela é atemporal. Mas, uma vez que entendemos o contexto original, conseguimos encontrar onde, em nossas próprias vidas, essa mesma palavra se aplica hoje. É para isso que existe o “Além do texto” neste blog: pegar uma passagem e perguntar o que está por baixo dela, para que possamos lê-la de forma mais fiel. Uma palavra como stoicheia, em Gálatas 4, por exemplo, soa abstrata até você saber o que ela significava para um leitor do primeiro século, encarando tanto deuses pagãos quanto uma leitura legalista da Torá. Uma vez que você sabe disso, a passagem deixa de ser um quebra-cabeça e passa a ganhar sentido mais pessoal. Como Ir Mais Fundo Sem Passar Horas em Comentários Você não precisa de uma biblioteca para fazer isso. Aqui está o que eu recomendo buscar: ● Compare Algumas Traduções Abra o mesmo versículo em duas ou três traduções como NVI, ARA, ACF, ou o que você tiver à mão. Onde elas discordam é, muitas vezes, exatamente onde algo interessante está acontecendo na língua original. Há algo que você precisa entender: toda tradução depende, em algum nível, de interpretação. Um tradutor teve que fazer uma escolha, e ver essas escolhas lado a lado te dá um ponto de partida para as perguntas que valem a pena fazer. ● Procure a Palavra Original Você não precisa saber grego ou hebraico para verificar uma palavra-chave. O app Bíblia Strong (gratuito em português) permite que você procure a palavra original por trás da sua tradução e veja onde mais ela é usada nas Escrituras. Às vezes, só de ver o alcance de significado de uma palavra já muda como você lê a frase. Aqui vai uma dica: não procure apenas a palavra em português em um dicionário comum. Veja a definição original em grego ou hebraico para entender como os autores bíblicos a usavam. ● Pergunte Quem, Quando e Por que Antes de Perguntar O Quê Antes de mergulhar no que um versículo significa, pergunte quem o escreveu, para quem estava escrevendo, e qual problema estava sendo tratado. Uma carta escrita para corrigir uma situação específica se lê de forma diferente quando você sabe qual era a situação. ● Perceba o Gênero Literário Um salmo, uma carta e uma narrativa precisam ser lidos de formas diferentes. A poesia usa imagens que não devem ser reduzidas a uma fórmula. Uma carta é um lado de uma conversa real. Uma história muitas vezes faz seu ponto através do que acontece, não através de um princípio declarado. E quando falamos de literatura apocalíptica, por exemplo, ela não deve ser lida de forma literal (vamos discutir isso mais a fundo em outro post). Assim, saber qual gênero você está lendo muda o que você deve procurar. O que fazemos então a partir daqui? Nada disso substitui o Espírito ensinando você enquanto lê , essa forma de estudar as escrituras só afasta um pouco da névoa, para que você possa ver com mais clareza o que já está ali. Toda vez que abrimos uma passagem juntos neste blog na seção “Além do texto”, é esse tipo de garimpo que está acontecendo nos bastidores. Agora você tem as ferramentas para acompanhar ou, melhor ainda, para você mesmo tentar primeiro.
- A Marca que Deixamos
Se as pessoas que te conhecem tivessem que te resumir em uma única palavra, qual seria? Não o seu cargo, não as suas conquistas, mas a característica que aparece toda vez que alguém interage com você. Qual seria? Em uma das cartas mais curtas do Novo Testamento, o apóstolo João responde exatamente a essa pergunta sobre um homem que a maioria de nós nunca ouviu falar. Seu nome era Gaio, em sua terceira carta, João começa dizendo que ouvira falar do testemunho de Gaio à verdade, e de como ele "andava na verdade". Refleti sobre como o testemunho tem a ver com aquilo que realmente vivemos. Andar na verdade significa que a pessoa conhece, crê e vive de acordo. Isso também me lembrou de outra passagem das Escrituras, em Tiago, que diz que não devemos ser apenas ouvintes da palavra, mas praticantes dela. Alguém que anda na verdade é um crente íntegro, inteiro. Não há dicotomia; dentro dele há uma correspondência perfeita entre aquilo que crê e como vive. Agora podemos perguntar: por que João elogia Gaio tão intensamente? O que fez João dizer que o testemunho dele correspondia à verdade? É interessante notar que João não elogia Gaio por suas grandes realizações. Ele não o elogia por ser conhecido ou ter "network" em círculos cristãos, por ser o líder mais carismático que atrai multidões, ou pelo número de posições e ministérios que ele lidera ao mesmo tempo, e por ter uma agenda eclesiástica sempre lotada. O grande exemplo de Gaio consiste, simplesmente, em amar o próximo. A palavra diz: "Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos, especialmente para com os estranhos, que diante da igreja testificaram do teu amor..." Gaio era um irmão generoso e hospitaleiro. Ele ofereceu amor sacrificial aos outros. Sim, sacrificial: ele recebeu estranhos em sua casa, aqueles chamados a proclamar a palavra da verdade, que se recusavam a ser sustentados por pagãos. E isso carrega um peso. Tanto peso que, no versículo 8, João diz que devemos apoiar essas pessoas para que nos tornemos cooperadores da verdade. Demonstrando que podemos não estar no campo missionário ou no ministério pastoral, mas o nosso cuidado com os santos faz de nós cooperadores da verdade. Agora preste bastante atenção nisso, pois vai abrir seus olhos para algo que talvez você não tenha percebido antes. Logo depois de elogiar Gaio, João o contrasta com Diótrefes que, de acordo com o texto grego, "amava ser o primeiro" (philoprōteuōn, de prōteuō): ele demonstra interesse próprio, espalha fofocas, não recebe os irmãos e ainda impede os que querem recebê-los. Vale notar que essa mesma palavra grega por trás do desejo de Diótrefes, prōteuō, também aparece em Colossenses 1:18, mas ali é aplicada a Cristo, dizendo assim: "Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência." A preeminência, o lugar de "ser o primeiro", pertence somente a Ele. Portanto, quando a preeminência surge em nosso próprio coração, podemos reconhecê-la pelo que ela é: um desejo de tentar ocupar um trono que já tem um ocupante. É por isso que a próxima instrução de João importa tanto. João nos dá uma instrução clara: imitar o que é bom, não o que é mau. Essa é a palavra de encorajamento e exortação para nós hoje. Não busque ganhar proeminência. Isso é mau. Nosso primeiro modelo a imitar é o próprio Cristo. Mas ainda assim, como dito por Paulo em 1 Coríntios 11:1: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo." precisamos de exemplos terrenos a seguir, mas preste atenção em quem você segue, e faça esta pergunta: "A quem essa pessoa está seguindo?" E lembre-se de que todos nós somos exemplos para alguém também. Generosidade como a de Gaio, quando é genuína, não acontece por acaso. Ela nasce em alguém que já sabe, no fundo, que é um filho amado, assim como nos tornamos em Cristo. Como João diz em sua primeira carta: "Nós o amamos porque ele nos amou primeiro" (1 João 4:19). Quem já foi amado assim, gratuitamente, aprende a amar assim também. E você? Quando as pessoas pensam em você, que marca elas percebem? Talvez a pergunta certa não seja "como posso ser mais generoso", mas "tenho vivido consciente de que já sou profundamente amado?" Porque é aí que nascem as boas marcas que deixaremos. Que a nossa oração seja a mesma de João por Gaio: que prosperemos em todas as coisas, assim como nossa alma prospera. Uma alma que já sabe, com certeza, que é amada.
- A Ousadia de Chamar Deus de “Aba”
Faz anos desde que Deus me chamou pela primeira vez para um relacionamento mais profundo com Ele, e me lembro de ouvir o seguinte logo no início desse processo: “Às vezes, estamos prontos para receber a ira de Deus, mas não estamos prontos para receber o Seu amor”. Não me lembro de quem ouvi, mas essas palavras me acompanham há muito tempo, e sim! Eu me identifiquei totalmente com elas. Como uma perfeccionista, eu nunca conseguia me ver como boa o suficiente para alcançar muitas coisas, incluindo conquistar o meu lugar à mesa de Deus como filha. À medida que a Palavra de Deus se tornou meu pão diário, percebi que, mesmo conhecendo mais sobre o Seu caráter, eu ainda estava mais pronta para o Seu castigo do que para o Seu amor. Mas como a palavra de Deus fala e constantemente afia nossos pensamentos e alinha nossas emoções, quando me sinto despreparada para receber o Seu amor, a pergunta que me faço é: “Em quais mentiras estou acreditando em vez de acreditar no que a Palavra Dele diz?” Assim que as identifico, eu intencionalmente deixo que a Palavra Dele lave os meus pensamentos. Exatamente como esta passagem de Gálatas: "E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: ‘Aba, Pai’."— Gálatas 4:6 Você pode clamar a Deus dizendo "Aba", mas você sabe o que isso realmente significa? Aqui está o que eu aprendi: Aba não é apenas um apelido carinhoso Ouvimos dizer com tanta frequência que “Aba” significa simplesmente “Papai”, uma palavra suave e sentimental de uma criança aprendendo a falar. E eu não estou aqui para dizer que não há verdade nisso, porque ela é sim uma palavra de intimidade. MAS ela carrega um peso muito maior do que apenas carinho. Quando Paulo diz que o Espírito clama "Aba, Pai" em nossos corações, ele está apontando para algo que é ao mesmo tempo profundamente íntimo e legalmente garantido: o clamor de um filho que sabe, sem sombra de dúvida, que pertence. Nós pertencemos a Deus; nós somos Dele e Ele é nosso. Mesmo quando enfrentamos disciplina (porque às vezes a correção é necessária), continuamos pertencendo a Ele. Hebreus 12 diz que Deus disciplina filhos e filhas, então vamos receber o Seu amor em qualquer forma que ele possa tomar, seja como um aplauso de aprovação ou como disciplina. Aba nos abre o caminho para nos relacionarmos com Deus exatamente como Jesus fez Aqui está o que torna essa expressão tão impressionante: vasculhe os Evangelhos e você verá que há apenas um lugar onde o clamor exato de Jesus por "Aba" foi registrado: Sua oração agonizante no Getsêmani, na noite anterior à cruz. Não em um momento de tranquilidade. No meio da tristeza, do suor e do peso do que estava por vir. Isso não é coincidência. Quando o Espírito reproduz esse mesmo clamor em nós, Ele não está nos entregando apenas um sentimento bom e aconchegante. Ele está nos entregando a própria oração de Jesus, o clamor de alguém que confiava totalmente no Pai, mesmo enquanto perguntava se havia outro caminho diante do sofrimento. Aba é uma prova de adoção Esta é a verdadeira evidência da adoção. E não a habilidade de realizar milagres ou de ter visões, por melhor que os dons espirituais sejam. A marca mais básica de pertencermos a Deus é esta: a nova maneira como nos é permitido falar com Ele. Não como servos negociando favores. Mas como filhos que já têm um lugar à mesa. Então, se você está passando por algo difícil agora, o tipo de noite que parece o seu próprio Getsêmani, isso não é prova de que você perdeu o seu lugar com Deus. Pode ser exatamente o oposto: o Espírito reproduzindo esse exato clamor em você, no meio da dor, é como soa a filiação. O que mudaria hoje se você acreditasse, no fundo da sua alma, que você tem o direito de clamar "Aba, Pai" não porque você mereceu, mas porque você pertence? Vamos receber o Seu amor e clamar ao nosso Aba em todas as circunstâncias, nos apegando à verdade de que nós pertencemos a Ele e isso não vai mudar. Obrigada, "Aba"!
- Será que Deus realmente se arrependeu? Desvendando a palavra hebraica nhm
Você já ouviu dizer que Deus se arrependeu? O que você pensa quando ouve isso? Será que Deus realmente reconhece que fez algo errado? Ou pode significar outra coisa? Existe algum significado diferente por trás dessa palavra? Por que estudos de palavras importam Palavras são símbolos que transmitem significado, mas precisamos ter em mente que elas podem transmitir significados diferentes dependendo do contexto — e, quando voltamos às línguas antigas, as palavras costumavam carregar muitos significados diferentes conforme o contexto. Nosso idioma evoluiu e nosso vocabulário é vasto, mas não era assim quando a Bíblia estava sendo escrita. Por isso, para quem deseja aprofundar sua compreensão nos estudos bíblicos, mergulhar em estudos de palavras em hebraico ou grego se torna um caminho obrigatório. Isso não significa que todo estudante entusiasmado das escrituras precise aprender línguas bíblicas, mas é importante estar ciente de que os estudos de palavras desempenham um papel importante para nos ajudar a entender o que o texto está dizendo, e que você pode encontrar muitos desses estudos discutidos por estudiosos que dedicaram seu tempo a aprender como fazê-los. A palavra que será discutida aqui é a raiz hebraica nhm. Este estudo vai ajudar você a entender o que significa quando você lê que Deus se arrependeu. Definição Começando por como essa palavra pode ser traduzida, descobrimos que nhm pode ser transliterada como lamentar, ter piedade, sentir pena, consolar-se, arrepender-se.[1] “A origem da raiz parece refletir a ideia de ‘respirar profundamente’, daí a manifestação física dos sentimentos de alguém, geralmente tristeza, compaixão ou consolo.”[2] Das 108 vezes em que essa palavra aparece, 56 vezes é traduzida como consolo, e 25 vezes no sentido de ceder (retroceder de um propósito). As demais ocorrências variaram entre sinônimos como consolação, compaixão, mudança, pesar, alívio. Em ambos os usos, Deus é o agente — ele é quem consola e ele é quem cede. Consolar Consolar significa aliviar a tristeza ou a angústia; dar força emocional a alguém.[3] Podemos ver isso em alguns usos abaixo: “Pois o Senhor consola Sião; consola todas as suas ruínas, e faz o seu deserto como o Éden, e a sua solidão como o jardim do Senhor.” (Is 51.3) “Clama ainda, dizendo: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Ainda as minhas cidades transbordarão de bens, e o Senhor ainda consolará a Sião, e ainda escolherá a Jerusalém.” (Zc 1.17) “Dirás naquele dia: Graças te dou, ó Senhor, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolaste.” (Is 12.1) “Rompei em júbilo, cantai juntamente, desertos de Jerusalém, porque o Senhor consolou o seu povo, remiu a Jerusalém.” (Is 52.9) Ceder A palavra ceder, nesse sentido, significa “cessar uma atividade específica, muitas vezes com a implicação de que essa cessação é um ato de graça.”[4] Em todo o Antigo Testamento vemos Deus como aquele que cede — ele cessa de trazer punição sobre o povo. Apesar disso, em algumas passagens Deus cede até mesmo em relação a coisas boas, como no uso de nhm em Gênesis 6:5–7, onde se diz que o Senhor se arrependeu [nhm] de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. A palavra hebraica nhm aparece com mais frequência associada a Deus cedendo, cessando de trazer desastre e punição — como quando Deus cedeu (nhm) do desastre contra Israel depois que Moisés intercedeu por eles (Êx 32.12, 14). Geralmente há um chamado ao arrependimento acompanhado de uma promessa de consolo e cessação, como vemos com frequência nos profetas maiores e menores, como abaixo: “E se aquela nação de que falei se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que lhe cogitava fazer.” (Jr 18.8) “Porque assim diz o Senhor dos Exércitos: Como pensei em fazer-vos mal, quando vossos pais me provocaram à ira, diz o Senhor dos Exércitos, e não me arrependi.” (Zc 8.14) O Caso de Jonas Um exemplo do uso dessa palavra aparece no livro de Jonas. Algumas traduções também usam o termo “arrepender”, como vemos abaixo: “Quem sabe se Deus se voltará, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, e não pereceremos? [...] E viu Deus as obras deles, que se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que dissera lhes havia de fazer, e não o fez.” (Jn 3.9–10) Será que Deus muda de ideia em Jonas? Como vemos em outros contextos em que Israel foi alvo da ira por causa de sua desobediência, Deus está sempre “mudando de ideia” quanto à sua punição. Essa “mudança de idéia” deve ser entendida à luz da raiz nhm. Deus cede da sua punição diante do arrependimento — vemos esse padrão se repetir muitas vezes no Antigo Testamento. Isso faz parte de quem Deus é: ele é um Deus misericordioso que responde a um coração contrito (cf. Sl 51.17). Eu diria que Deus deseja mudar de idéia — como um bom pai, ele prefere que seu filho receba bênçãos, e não punição. Quando vemos Deus se arrependendo, ele não está reconhecendo que estava errado, mas está cessando de causar a consequência natural da desobediência. Ao levar isso em consideração, vemos em Jonas que Deus não faz acepção de pessoas — apesar de um julgamento ter sido proclamado, Deus pode ceder quando há verdadeiro arrependimento. Entender esse conceito vai ajudar você a ver o livro de Jonas de forma menos isolada. Porque, na verdade, a história não é realmente sobre Jonas, mas faz parte da revelação progressiva do evangelho às nações; assim como em outros lugares ao longo das escrituras, Deus mostra que está disposto a perdoar e afirma que é o único capaz de fazer isso. Então, na próxima vez que você ouvir que Deus se arrependeu, pense em termos de cessar um julgamento e deixe fios de graça encontrarem um lugar em seu coração. Notas [1] Francis Brown, Samuel Rolles Driver, and Charles Augustus Briggs, Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon (Oxford: Clarendon Press, 1977), 636. [2] Timothy Prussic, “Divine Repentance: A Word Study,” WRS, www.wrs.edu/assets/docs/Journals/2005a/Prussic - Divine Repentance.pdf. Accessed 20 Apr. 2024. [3] Rick Brannan, ed., Lexham Research Lexicon of the Hebrew Bible, nhm, Lexham Research Lexicons (Bellingham, WA: Lexham Press, 2020). [4] Brannan, nhm. Bibliografia Brown, Francis, Samuel Rolles Driver, and Charles Augustus Briggs. Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Oxford: Clarendon Press, 1977. Brannan, Rick, ed. Lexham Research Lexicon of the Hebrew Bible, nhm. Bellingham, WA: Lexham Press, 2020. Logos Bible Study Software. Word Study Guide. https://ref.ly/logos4/Guide?t=My+Bible+Word+Study&lemma=lbs%2fhe%2f%D7%A0%D7%97%D7%9D Prussic, Timothy. “Divine Repentance: A Word Study.” WRS, www.wrs.edu/assets/docs/Journals/2005a/Prussic - Divine Repentance.pdf. Accessed 20 Apr. 2024.
- A Teologia do Jardim Distorcido
Já tive o privilégio de visitar muitos museus de arte e ver de perto obras de pintores renomados como Monet, Van Gogh, Leonardo da Vinci e Picasso. Apesar de não ser uma especialista na área, amo contemplar obras que refletem a alma e o olhar do artista. Recentemente, ao visitar um museu na Filadélfia, deparei-me com pinturas únicas de Renoir. Como alguém de temperamento contemplativo, e mesmo com minha experiência limitada, pude sentir que a marca registrada desse pintor impressionista também era a contemplação: suas telas são reflexos sutis da vida cotidiana, transparecendo momentos de profunda calmaria. Ao caminhar, mais tarde, pelo exterior de um lindo jardim, vi a oportunidade de retratar a minha própria realidade como se fosse uma pintura. A pergunta que me veio à mente foi: “Se Renoir estivesse aqui, que tipo de realidade ele pintaria hoje?” No entanto, ao olhar para a foto que tirei, confrontei-me com uma realidade melancólica. Se eu tivesse que dar um nome a essa imagem, seria “Distração”. E foi exatamente a partir daí que Deus começou a falar comigo. A primeira passagem bíblica que me inundou os pensamentos ao observar as flores foi: “Toda a humanidade é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre.” (1Pe 1:24-25). Assim como esse belo jardim, a humanidade é deslumbrante, mas passageira. A única constante inabalável que não perece é a Palavra do Senhor. Este cenário nos lembra, a todo instante, a nossa própria brevidade. A grande ironia dos nossos dias é que vivemos correndo atrás de uma maneira de deixar uma marca no mundo, um legado, tentando ignorar nossa própria pequenez, enquanto desperdiçamos o presente. Olhe atentamente para a foto. A única pessoa presente nela não está contemplando o céu, admirando as flores ou sentindo o vento. Sentado em um banco que parece um convite explícito para adorar a Deus — afinal, a Escritura diz que os céus e toda a criação manifestam a Sua glória —, o homem se esconde atrás de uma tela. Se Renoir estivesse pintando essa cena, ele certamente enfatizaria as cores vibrantes da vegetação, a atmosfera simples e a figura solitária que representa a humanidade. Mas, como estamos no século XXI, a fotografia revela uma camada extra e dolorosa da realidade: muitas vezes estamos presentes fisicamente, enquanto nossa mente vaga por territórios digitais. Meu marido (o modelo da foto) não estava distraído de verdade; ele pegou o celular a meu pedido, pois eu queria intencionalmente registrar o espírito da nossa época. Vivemos exaustos e, com frequência, clamamos perguntando onde Deus está, mas esquecemos onde procurar a resposta. Deus está em toda parte. O Salmo 139 nos lembra que, mesmo se tentássemos fugir do Seu Espírito, não conseguiríamos. Por isso, essa imagem funciona como um convite. O jardim nos convida a retornar ao princípio de tudo, ao Éden, nos fazendo questionar: “Para que Deus me criou?”. As formas distorcidas e reflexivas na parede ao fundo nos chamam a considerar a distorção que o pecado provoca sobre a harmonia da criação. E o banco? O banco é um convite sagrado à pausa. Um comando para sentar, respirar e contemplar. Deus deseja falar conosco, se ao menos olharmos para o céu para reconhecer Sua grandeza e soberania. Se eu tivesse que resumir a história por trás desse registro, eu diria: “Deus plantou um jardim ao redor dele... mas ele preferiu checar as notificações.” A nossa vida terrena é curta. Nem sempre teremos um banco confortável no meio de um jardim cinematográfico para conversar com o Criador. Mas, certamente, existirão outros cenários cotidianos em que Ele revelará quem Ele é e quem nós somos Nele. A pergunta essencial que fica para mim e para você é: será que temos mantido nossos olhos e ouvidos atentos para essa experiência?
- Do Sinai a Pentecostes: Ecos das Escrituras, Fios de Graça
Uma das coisas que mais gosto de fazer ao estudar as Escrituras é rastrear o uso do Antigo Testamento dentro do Novo. Algumas conexões são evidentes quando o autor cita diretamente uma passagem das Escrituras, mas outras são menos aparentes. Estudar as Escrituras muitas vezes parece uma busca por um tesouro enterrado. As pérolas estão sempre escondidas dentro de uma concha. Da mesma forma, quando falamos de métodos menos aparentes de usar as Escrituras dentro das próprias Escrituras, podemos encontrar alusões ou citações, que podem ser diretas ou indiretas. Os ecos também são muito frequentes, e são o tipo de conexão que, se alguém não estiver familiarizado com as Escrituras, especialmente o Antigo Testamento, será difícil de perceber. No entanto, uma vez revelados, é como descobrir uma nova terra, que, quando vista através das lentes da teologia bíblica, sempre revelará mais do caráter de Deus. Entre todos os ecos do Antigo Testamento encontrados no Novo Testamento, um sempre me fascinou mais do que os outros: a conexão entre o Monte Sinai e Pentecostes. Para mim, a ligação entre esses dois grandes eventos na história do povo de Deus nos ajuda a entender que Deus nunca muda. Não existe um Deus da lei separado de um Deus da graça; Ele é um só. Rastreando o Eco Você sabia que o primeiro Pentecostes aconteceu no Sinai? O dia de Pentecostes também é conhecido como a Festa das Semanas. Você pode encontrar sua descrição em Êxodo 23. Essa festa era celebrada cerca de 50 dias após a Páscoa, como uma celebração da colheita do trigo. Durante o primeiro século, Pentecostes também estava associado à renovação da aliança feita com Moisés, uma celebração da entrega da lei. Mas Pentecostes é a última de três festas conectadas: Páscoa, Primícias e Pentecostes. Agora, lembremos que Jesus morreu na Páscoa (o Cordeiro pascal perfeito) e ressuscitou três dias depois (como as primícias); por 40 dias Ele apareceu a muitos e, antes de ascender para estar com o Pai, instruiu Seus discípulos a esperar até o Pentecostes. A descrição de Lucas em Atos 2 ecoa Êxodo 19 de muitas formas, e aqui estão algumas delas: Sinai Sião Por causa do cordeiro pascal Por causa do cordeiro pascal perfeito Ao povo foi dito para esperar. Ao povo foi dito para esperar. Visitação à vista de Israel Visitação à vista das nações Trombetas Som de vento impetuoso Fogo no topo do monte Fogo descendo sobre o povo O povo ouviu apenas um som inarticulado. O Espírito de Deus os capacita a falar em línguas. 3.000 morreram. 3.000 creram e foram acrescentados à igreja. A nação de Israel nasce. A igreja nasce. Entrega da lei escrita pelo Espírito em tábuas de pedra Entrega da lei escrita pelo Espírito em seus corações Você consegue ver como essas conexões ficam claras quando as colocamos juntas? Acredito que todos nós podemos ver essas conexões assim como Lucas viu, e sermos beneficiados por elas. Atos 2 abre as cortinas para mostrar que a presença de Deus se moveu de um monte para habitar dentro do Seu povo. Não é apenas coincidência — Lucas também reconta intencionalmente a história do Êxodo. Estudiosos da Bíblia costumam chamar isso de "recapitulação", o reconto de um ato anterior de Deus para revelar seu cumprimento maior em Cristo. Dá para ver a progressão: o fogo que desceu sobre o monte era intocável, mas agora o fogo veio e tocou o povo de Deus; enquanto 3.000 pessoas morreram por causa da rebelião, nessa nova era 3.000 foram acrescentadas porque creram. A aliança no Sinai era boa, mas a nova aliança é ainda maior. No Pentecostes, a igreja, redimida pelo sangue do Cordeiro perfeito e tirada da escravidão do pecado, recebe o poder de Deus para o serviço. Tudo isso revela que o propósito de Deus para o Seu povo nunca mudou. No Sinai, Ele redimiu Israel antes de lhes dar a Sua lei. E agora, Ele redimiu a Sua igreja pelo sangue de Cristo antes de derramar o Seu Espírito em Pentecoste. Em ambas as alianças, Deus forma um povo para Si mesmo, os chama para a Sua presença e os envia para refletir a Sua santidade ao mundo. Quanto mais estudo as Escrituras, mais convencida fico de que Deus nos conta uma história unificada. Seu caráter imutável está entrelaçado de Gênesis ao Apocalipse, e Sua graça é o fio no qual cada pérola da Escritura é tecida. Aprender a reconhecer essas conexões pode parecer intimidador no início, mas é uma das maiores alegrias de estudar as Escrituras. A verdade é que o próprio Deus revela essas pérolas conforme O buscamos de todo o coração. Quanto mais pérolas unimos, mais claramente vemos que o Deus do Sinai é também o Deus de Pentecostes. Ele nunca mudou. Desde o princípio, o Seu desejo tem sido redimir um povo para Si mesmo, habitar entre eles e enviá-los ao mundo como Suas testemunhas. Pedro entendeu bem isso quando descreveu a igreja usando uma linguagem antes usada para Israel: “Vocês também, como pedras vivas, estão sendo edificados como casa espiritual, para serem um sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.” Quando começamos a perceber esses ecos, descobrimos que eles são muito mais do que conexões literárias. São convites para conhecer o Deus que vem tecendo uma história magnífica do início ao fim. Cada pérola que descobrimos é linda, mas o verdadeiro tesouro é Aquele a quem cada pérola aponta.
- O Primeiro santuário: descobrindo o DNA da humanidade
“Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro especial entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo 19:5–6). Foi isso que o Senhor disse ao povo de Israel quando os libertou, com graça e poder, das mãos do Egito. Quando olho para esse texto, sou lembrada de que a salvação tem um propósito: fomos redimidos para servir a Deus como sacerdotes. Para quem talvez nunca tenha ouvido falar sobre isso, não se preocupe — à medida que formos tecendo essas pérolas juntos, espero que, até o final deste texto, você não apenas entenda, mas também aprecie e aplique essa verdade à sua própria vida. A ideia do sacerdócio é confirmada por Pedro, que falou sobre isso à igreja, dizendo que somos “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus” (1 Pedro 2:9). Mas esses dois versículos não são os únicos lugares de onde podemos tirar essa conclusão, já que a Bíblia revela uma história abrangente de Deus que vai de Gênesis ao Apocalipse — o propósito de fazer do povo sua propriedade, um sacerdócio santo e real, não é revelado pela primeira vez em Êxodo, mas em Gênesis. Desde o momento em que Deus criou a humanidade, sua vontade expressa era habitar entre nós. O lugar onde ele habita não poderia ser menos que um santuário, que deveria ser mantido limpo e em ordem para que o Deus santo pudesse estar presente. Éden: A Cidade-Templo de Deus O tema da cidade-templo de Deus há muito tempo é discutido entre estudiosos — dois deles serão apresentados aqui: Desmond Alexander, em seu livro From Paradise to the Promised Land, e Gordon Wenham, em seu artigo “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story”. Comparar as duas visões vai nos ajudar a responder duas perguntas: Como esse tema impacta a humanidade antes e depois do pecado inicial de Adão e Eva? Onde está a esperança final para a restauração dessa Cidade-Templo? Quero começar comparando as duas visões, que na maior parte do tempo são muito semelhantes e complementares. Os dois estudiosos apontam que: · O Éden não era visto pelo autor apenas como um pedaço de terra, mas como o protótipo de um santuário, onde Deus habita e o homem o adora.[1] (ver Gn 2.15; Nm 3.7-8; 18.5-6) · Há paralelos entre a história do Éden e os santuários israelitas posteriores, como Deus caminhando no jardim, assim como em meio ao tabernáculo[2] (ver Gn 3.8; Lv 26.12; 2 Sm 7.6-7) · Há uma semelhança marcante entre a entrada leste do jardim e a do tabernáculo[3] (ver Gn 2.8; 3.24; Êx 27.13-16; Nm 3.38) · Há também uma relação entre o candelabro (menorá) do templo e a árvore da vida.[4] (ver Gn 2.9; 3.22; Êx 25.31-40) · O rio que flui do jardim alude à imagem da futura Jerusalém, com um rio fluindo do templo[5] (ver Gn 2.10; Ez 47.1-12; Zc 14.8; Ap 22.1-2) · Materiais como ouro e ônix, mencionados em Gênesis, foram amplamente usados depois nos santuários e nas vestes sacerdotais.[6] (ver Gn 2.11-12; Êx 25.3-7; 28.9-12) Além das características funcionais e físicas compartilhadas entre o templo e o jardim, há também evidências da intenção de Deus de construir uma cidade-templo quando analisamos o papel do homem. A primeira coisa notada pelos dois autores é que, se o Éden é visto como um santuário[7], então Adão deveria ser descrito como um levita. Sobre isso, Alexander explora um aspecto muito importante do papel sacerdotal de Adão e lança luz sobre ele. O autor argumenta que, ao ser humano, Deus deu status real (porque foram criados à imagem de Deus) junto com autoridade real.[8] Ele afirma que “no coração do plano divino para os seres humanos está a ideia de que eles deveriam governar a terra como vice-regentes de Deus.”[9] A principal diferença entre os dois autores está na visão de Wenham sobre a relação entre a árvore do conhecimento do bem e do mal e a Torá (também conhecida como a Lei). O autor vê uma conexão entre a descrição da árvore como “agradável aos olhos, boa para se comer e desejável para dar entendimento” e o Salmo 19.8-9, que descreve a lei como aquela que “faz sábio o simples, alegra o coração e ilumina os olhos”. Sobre isso, acho que deveríamos buscar mais sustentação, mas, na minha opinião, essa conexão só faz sentido se vista pela lente do contraste: a árvore poderia dar um conhecimento à parte de Deus, o que abriu caminho para o pecado e a distorção da verdade, enquanto a lei revela o conhecimento cuja fonte é o próprio Deus, abrindo caminho para as bênçãos. E agora? Como isso deveria impactar a forma como vivemos? Esse tema nos ajuda a refletir sobre pelo menos três aspectos: · O propósito original de Deus para a humanidade — Você não foi criado para o comum. Se a intenção original sempre foi viver na presença de Deus, servindo a ele e governando a terra como seus vice-regentes, podemos entender que a redenção vem para restaurar esse propósito original. Esse tema responde à pergunta de por que estou aqui, para que propósito Deus me salvou e o que eu deveria estar fazendo com isso. Allen Ross afirma que “a história da criação do homem e da mulher explica que os seres humanos têm a capacidade e a responsabilidade, dadas por Deus, de servir ao Senhor com integridade.”[10] Entender que fomos criados para um propósito maior eleva o propósito de tudo o que fazemos. Seja o que for que você faça — servir sua família, trabalhar profissionalmente em qualquer área, ou servir na sua igreja local — é um ato de adoração a Deus. Como redimidos em Jesus Cristo, o sagrado e o secular encontram um terreno comum, e devemos servi-lo com integridade. Como Paulo diz, “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens... vocês estão servindo é ao Senhor Cristo” (Colossenses 3:23-24). Seu trabalho diário é uma vocação sagrada. · O valor das pessoas — Apesar da queda, é importante destacar que a humanidade manchou a imagem divina, mas nunca a perdeu.[11]Em vista disso, pensando em qualquer tipo de interação social, nossa postura diante dos outros deve ser de amor, porque as pessoas, de modo geral, são todas reflexos da glória de Deus em algum grau. Longman argumenta que “o pecado não erradica a imagem, e nunca devemos esquecer isso ao considerarmos quem nós somos e quem são aqueles com quem interagimos.”[12] · Somos a habitação de Deus — Quando pensamos na cidade-templo de Deus, conseguimos entender o que Paulo estava dizendo sobre a igreja em Efésios: “nele vocês também estão sendo edificados juntamente, para ser habitação de Deus por meio do Espírito” (Ef 2.19-22). Agora, tendo depositado minha fé em Cristo e recebido o Espírito Santo em mim, Gênesis nos dá orientação sobre como guardar e proteger o próprio coração contra as ciladas do inimigo, para que possamos trazer shalom (o estado harmônico e original da criação) para tudo o que fazemos e para todos com quem nos relacionamos, como o bom perfume de Deus. Walton diz assim: “Embora o restante da criação espere junto conosco pela libertação final dos efeitos do pecado (Rm 8.18-21), somos os herdeiros do Jardim do Éden e, portanto, do mandato do Éden. O que isso exige de nós?”[13] Acredito que, em resumo, isso é uma vida consagrada ao Senhor. Onde está a esperança final para a restauração da Cidade-Templo? A esperança final para a restauração é revelada em Apocalipse 21-22. Deus vai realizar o seu propósito na restauração definitiva da Nova Jerusalém. Um dia, a Jerusalém terrena e a celestial serão unidas, e completaremos nossa jornada do Éden até a Nova Jerusalém.[14] Sobre essa restauração futura, Alexander afirma: “Embora nossa experiência futura de vida tenha algo em comum com o presente, ela também será radicalmente diferente. Tudo o que atrapalha a experiência de uma vida plena será, um dia, totalmente erradicado. Só então, e apenas então, conheceremos a vida como Deus pretende que ela seja.”[15] Enquanto esperamos por nossa restauração plena, minha oração é que a consciência do propósito de Deus para a humanidade acenda em nós o desejo de adorá-lo em espírito e em verdade — um desejo de cuidar da criação e dos outros de uma forma que mostre como será a vida eterna ao lado dele. Bibliografia Alexander, T. Desmond. From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology. Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2008. Alexander, T. Desmond. From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch. Grand Rapids, MI: Baker Academic, a division of Baker Publishing Group, 2022. Longman, Tremper, III. Genesis. Edited by Tremper Longman III. The Story of God Bible Commentary. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2016. Ross, Allen P. Creation and Blessing: A Guide to the Study and Exposition of Genesis. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998. Shimoff, Sandra R. “Gardens: From Eden To Jerusalem.” Journal for the Study of Judaism in the Persian, Hellenistic, and Roman Period 26, no. 2 (1995): 145–55. http://www.jstor.org/stable/24659588. Walton, John H. Genesis. The NIV Application Commentary. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001. Wenham, Gordon J. “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story.” Proceedings of the World Congress of Jewish Studies (1985): 19–25. http://www.jstor.org/stable/23527779. [1]Gordon J. Wenham, “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story,” Proceedings of the World Congress of Jewish Studies (1985), 19. [2]T. Desmond Alexander, From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch (Grand Rapids, MI: Baker Academic, a division of Baker Publishing Group, 2022). [3]Alexander, From Paradise, 14. [4]Alexander, From Paradise, 14. [5]Alexander, From Paradise, 14. [6]Alexander, From Paradise, 14. [7]Wenham, “Sanctuary,” 21. [8]Alexander, From Paradise, 15. [9]Alexander, From Paradise, 15. [10]Allen P. Ross, Creation and Blessing: A Guide to the Study and Exposition of Genesis (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998), 118. [11]Tremper Longman III, Genesis, The Story of God Bible Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2016), 42. [12]Longman, Genesis, 43. [13]John H. Walton, Genesis, The NIV Application Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001), 195. [14]Sandra R. Shimoff, “Gardens: From Eden to Jerusalem,” Journal for the Study of Judaism in the Persian, Hellenistic, and Roman Period 26, no. 2 (1995): 155. [15]T. Desmond Alexander, From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology (Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2008), 192.
- Algumas Flores Desabrocham Fora de Época
É inverno em Maringá e o clima não poderia estar melhor (claro que eu gostaria de neve e temperaturas negativas, mas para um lugar onde na maior parte do ano se pode fritar um ovo no calor da calçada, esta época do ano é a melhor). O inverno é marcado por um período de descanso, pelo menos para as plantas. É quando elas pausam seu crescimento e o verde não é tão forte. Mas não para os ipês-roxo, e ele atinge o ápice de sua beleza durante esta estação. Enquanto todas as outras plantas parecem estar lutando para sobreviver, o ipê troca o seu verde por uma florada inteira de buquês cor-de-rosa. Parece que ela está pronta para um baile real em seu vestido de festa. A cidade fica maravilhosa e, como em um sonho, vejo as calçadas sendo cobertas por pétalas rosas à medida que começam a se soltar do buquê. Já faz um tempo que venho ouvindo um sussurro do Espírito dizendo: "As flores também desabrocham no inverno." Ao contemplar a criação de Deus, considero o que Ele poderia estar revelando através disso. Não posso dizer que cheguei à medida completa de Sua revelação, mas parte dela começa a criar raízes em meu coração. Algum tempo atrás, escrevi um salmo original para um trabalho, e escrevi que Deus deve ser louvado em todas as circunstâncias; que Seu poder não pode ser contido e Ele não pode ser colocado em uma caixa. Deus não está limitado às estações, embora Ele as tenha estabelecido como um padrão. Uma palavra me vem à mente em Jeremias 17. Ela diz: "Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. Porque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto." (Jeremias 17:7-8) O Senhor não retém o florescer apenas porque é inverno. Enquanto alguns precisam do calor e da água, outros serão moldados na seca e no frio. O Senhor, e não eu mesma, determinará qual é o tempo certo. Mas a palavra de encorajamento para mim é que Ele não precisa esperar pela estação "esperada". Portanto, meu coração também não precisa esperar por uma ocasião especial para oferecer louvor e adoração. Eu imagino a quão valiosa é uma flor fora de época, e quanta atenção uma flor de inverno atrai para os olhos. Singularidade é outra palavra que me vem à mente. Às vezes olho ao redor me comparando com a forma como eu deveria estar dando frutos ou florescendo. Mas as flores fora de época estão me lembrando que Deus trabalha de maneiras inesperadas e escolhe quando e como exibiremos a Sua glória através de nossas vidas. Novamente, a obra de Cristo em nós pode parecer diferente de uma pessoa para outra. O meu trabalho é permanecer nEle e — quer as circunstâncias sejam boas ou ruins, quentes ou frias — permitir que o ambiente adequado seja criado para um florescimento completo. Não estou atrasada; Deus tem o tempo certo. O frio desta estação pode ser exatamente o que eu preciso para florescer. Flores fora de época são únicas e valiosas. Andamos por fé e não por vista. Aleluia!
- Circuncisão: qual é a questão?
Quando Deus estabeleceu sua aliança com Abraão, ele instruiu a ele e a todos os homens de sua casa a se circuncidarem. A circuncisão a partir desse ponto, em Gênesis, tornou-se um sinal da aliança de Deus. Entre muitas regulamentações inscritas na Torá, a Circuncisão, a Guarda do Sábado e as Leis Alimentares eram consideradas marcas delimitadoras que distinguiam o povo de Deus das nações pagãs. Durante o período do segundo templo, em geral, um gentio podia se relacionar com a fé judaica em diferentes níveis; eles podiam ser Simpatizantes, Monoteístas Éticos ou Prosélitos (convertidos).[1] Neste processo de conversão, tornar-se um prosélito exigia a circuncisão, pois a circuncisão para o judeu tinha um grande significado para a sua identidade;[2] era o sinal do seu status pactual. A literatura rabínica também informa que a circuncisão era capaz de lidar com as paixões mundanas.[3] O pensamento geral era que a única maneira de os gentios se tornarem parte do povo de Deus era tornando-se judeus.[4] Paulo tinha esse mesmo pensamento antes de seu encontro com Jesus, mas após o seu chamado, ele entendeu que os gentios se tornam parte do povo de Deus através da fé em Jesus o Messias; não havia necessidade de se tornar um prosélito. Paulo compreendeu que a igreja de Cristo era diversa e inclusiva, e que a circuncisão "minaria a inclusividade radical do Evangelho".[5] Ele era contra a circuncisão dos gentios porque a "judaização" não era direcionada a eles.[6] Além disso, como podemos ver em Atos 15, durante o concílio de Jerusalém, concluiu-se que os gentios não precisavam se submeter à circuncisão, pois Deus estava derramando o Seu Espírito sobre eles da mesma maneira que fez sobre os judeus. Os oponentes de Paulo em Gálatas, por exemplo, estavam agindo como "judaizantes", o que se referia a um grupo de ativistas que defendiam as tradições judaicas. Apesar da opinião de alguns estudiosos de que os oponentes eram judeus, existe outra possibilidade de que os oponentes pudessem ser gentios prosélitos.[7] Poderiam ser "pecadores pagãos que erroneamente pensam que a lei é um mecanismo para serem justificados".[8] E, de acordo com Paulo, eles estavam exigindo a circuncisão apenas por medo de perseguição. [1] Matthew Thiessen, “Jewish Solution to the Gentile Problem,” ensaio, em Paul and the Gentile Problem (New York, NY: Oxford University Press, 2016), 19. [2] Thiessen, “Jewish”, 25. [3] Thiessen, “Jewish”, 30. [4] Matthew Thiessen, “Do you not hear the law?” ensaio, em Paul and the Gentile Problem (New York, NY: Oxford University Press, 2016), 78. [5] Thiessen, “Jewish”, 42. [6] Thiessen, “Jewish”, 42. [7] Thiessen, “Jewish”, 26. [8] M. W. Elliott et al., “Paul’s former occupation in Ioudaismos” ensaio, em Galatians and Christian Theology: Justification, the Gospel, and Ethics in Paul’s Letter (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2014), 37.










