
A Teologia do Jardim Distorcido
Já tive o privilégio de visitar muitos museus de arte e ver de perto obras de pintores renomados como Monet, Van Gogh, Leonardo da Vinci e Picasso. Apesar de não ser uma especialista na área, amo contemplar obras que refletem a alma e o olhar do artista. Recentemente, ao visitar um museu na Filadélfia, deparei-me com pinturas únicas de Renoir. Como alguém de temperamento contemplativo, e mesmo com minha experiência limitada, pude sentir que a marca registrada desse pintor impressionista também era a contemplação: suas telas são reflexos sutis da vida cotidiana, transparecendo momentos de profunda calmaria.
Ao caminhar, mais tarde, pelo exterior de um lindo jardim, vi a oportunidade de retratar a minha própria realidade como se fosse uma pintura. A pergunta que me veio à mente foi:
“Se Renoir estivesse aqui, que tipo de realidade ele pintaria hoje?”
No entanto, ao olhar para a foto que tirei, confrontei-me com uma realidade melancólica. Se eu tivesse que dar um nome a essa imagem, seria “Distração”.
E foi exatamente a partir daí que Deus começou a falar comigo.
A primeira passagem bíblica que me inundou os pensamentos ao observar as flores foi: “Toda a humanidade é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre.” (1Pe 1:24-25). Assim como esse belo jardim, a humanidade é deslumbrante, mas passageira. A única constante inabalável que não perece é a Palavra do Senhor. Este cenário nos lembra, a todo instante, a nossa própria brevidade.
A grande ironia dos nossos dias é que vivemos correndo atrás de uma maneira de deixar uma marca no mundo, um legado, tentando ignorar nossa própria pequenez, enquanto desperdiçamos o presente. Olhe
atentamente para a foto. A única pessoa presente nela não está contemplando o céu, admirando as flores ou sentindo o vento. Sentado em um banco que parece um convite explícito para adorar a Deus — afinal, a Escritura diz que os céus e toda a criação manifestam a Sua glória —, o homem se esconde atrás de uma tela.
Se Renoir estivesse pintando essa cena, ele certamente enfatizaria as cores vibrantes da vegetação, a atmosfera simples e a figura solitária que representa a humanidade. Mas, como estamos no século XXI, a fotografia revela uma camada extra e dolorosa da realidade: muitas vezes estamos presentes fisicamente, enquanto nossa mente vaga por territórios digitais. Meu marido (o modelo da foto) não estava distraído de verdade; ele pegou o celular a meu pedido, pois eu queria intencionalmente registrar o espírito da nossa época. Vivemos exaustos e, com frequência, clamamos perguntando onde Deus está, mas esquecemos onde procurar a resposta.
Deus está em toda parte. O Salmo 139 nos lembra que, mesmo se tentássemos fugir do Seu Espírito, não conseguiríamos. Por isso, essa imagem funciona como um convite. O jardim nos convida a retornar ao princípio de tudo, ao Éden, nos fazendo questionar: “Para que Deus me criou?”.
As formas distorcidas e reflexivas na parede ao fundo nos chamam a considerar a distorção que o pecado provoca sobre a harmonia da criação.
E o banco? O banco é um convite sagrado à pausa. Um comando para sentar, respirar e contemplar. Deus deseja falar conosco, se ao menos olharmos para o céu para reconhecer Sua grandeza e soberania.
Se eu tivesse que resumir a história por trás desse registro, eu diria:
“Deus plantou um jardim ao
redor dele... mas ele preferiu checar as notificações.”
A nossa vida terrena é curta. Nem sempre teremos um banco confortável no meio de um jardim cinematográfico para conversar com o Criador. Mas, certamente, existirão outros cenários cotidianos em que Ele revelará quem Ele é e quem nós somos Nele. A pergunta essencial que fica para mim e para você é: será que temos mantido nossos olhos e ouvidos atentos para essa experiência?



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