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"A tua palavra é lâmpada que ilumina meus passos e luz que clareia o meu caminho" Ps 119:105

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"A tua palavra é lâmpada que ilumina meus passos e luz que clareia o meu caminho" Ps 119:105

O Evangelho em Cores: Por que precisamos do Pentateuco?

Writer: ledyanne silva
ledyanne silva
Sep 10
5 min read

A mesa estava posta, as Bíblias prontas, para o nosso primeiro encontro de pequeno grupo. Como a maioria de nós era cristã por muito tempo, escolhi começar pelo Evangelho de Lucas, minha esperança era ver o Espírito Santo em ação já nas primeiras páginas. Mas uma das mulheres do grupo, cristã desde a infância, travou quase imediatamente. Ela entendia que Jesus havia morrido pelos seus pecados, mas o longo processo de redenção que culminou em seu nascimento a deixava perdida. As genealogias, as profecias, a espera, tudo parecia um quebra-cabeça cuja caixa ela nunca tinha recebido.


Aquela situação me fez mudar de plano. Ao invés de seguir adiante em Lucas, voltamos até o começo, em Gênesis, e percorremos os quatro livros que o seguem: o Pentateuco, também chamado de Torá. Como bem coloca Ian Vaillancourt, sem o Pentateuco não haveria primeiro ato no grande drama.[1] Ele é o fundamento para compreendermos como o mundo veio a existir, o nosso lugar dentro dele, por que somos inclinados ao pecado, o anseio em nosso coração por algo mais, e a promessa de Deus de intervir em nosso favor.[2] Para alguém como minha amiga, o Pentateuco ajuda a passar de uma compreensão em preto e branco da mensagem da Bíblia para uma visão do evangelho em cores resplandecentes.[3]


Composto por cinco volumes, muitos temas podem ser identificados neles, mas há um que atravessa todos eles: a redenção é um dos temas mais proeminentes do Pentateuco, e se conecta diretamente ao Evangelho e ao restante da Bíblia. A Bíblia, de Gênesis ao Apocalipse conta a história de um Deus que criou o mundo tendo a humanidade como seu ponto culminante, de um povo que escolheu se rebelar contra o seu Criador, e de um Deus que respondeu com a promessa de resgatar sua criação.[4]


Uma Palavra que Perdeu seu Peso


Para a maioria de nós, a palavra redenção já não carrega todo o seu peso bíblico, isso se dá em parte por causa do tempo entre nós e os autores bíblicos. Mas quando os escritores do Antigo Testamento queriam descrever o relacionamento entre Yahweh e o seu povo, redenção era a palavra escolhida.[5] Ela nunca se referiu apenas ao livramento da escravidão do pecado, mas também com relacionamento. Sandra Richter explica assim: a redenção era o meio pelo qual um membro perdido da família era restaurado a um lugar de segurança dentro do círculo de parentesco. Essa era a responsabilidade do patriarca, sendo a rede de segurança da sociedade de Israel, e esse é o cenário da história em que nós, crentes do Novo Testamento, hoje nos encontramos.[6] O Pentateuco é, de muitas formas, o livro da redenção, a introdução ao que Deus tem em mente para toda a criação.[7]


Dá para acompanhar esse fio condutor em quase todas as características centrais desses cinco livros. Aqui estão algumas delas:


1.        A aliança - Quatro das seis alianças do Antigo Testamento estão no Pentateuco, e cada uma reforça o compromisso de Deus com o seu povo, impulsionando a história da redenção adiante.[8] Deus escolheu a aliança como o veículo para comunicar o seu plano de redenção.[9]


2.        As genealogias - as partes que mais somos tentados a pular. Elas estão ali por um motivo: traçam uma linhagem de redenção, garantindo que as promessas de Deus passem fielmente de uma geração a outra. Essa “genealogia da redenção” aponta para o cumprimento final da redenção de Deus em Cristo. Como observa Vaillancourt, os elos com Jesus como a descendência da mulher são claríssimos — ele é aquele em quem a promessa de Gênesis 3:15 encontra seu cumprimento definitivo.[10]


3.        O êxodo - a maior história de redenção do Antigo Testamento. Vaillancourt argumenta que o êxodo está para o Antigo Testamento assim como o evento cruz-ressurreição está para o Novo Testamento.[11] Eu iria além e o chamaria de projeção antecipada do evangelho. A restauração de fato começou no Antigo Testamento, sim, mas foi somente na cruz e na ressurreição que o verdadeiro segundo êxodo, maior, melhor e definitivo se cumpriu.[12]


4.        A terra - a promessa da terra também faz parte do plano redentor de Deus, e é mais do que agrícola: ela aponta para uma intimidade restaurada entre Deus e o seu povo.[13] T. Desmond Alexander observa que Canaã ecoa o Jardim do Éden ,  um lugar onde as pessoas são chamadas a desfrutar da presença e da comunhão com Deus.[14]


5.        A lei - os Dez Mandamentos e o livro da aliança apontam para uma mesma direção: como viver a vida como alguém já redimido por Yahweh. As exigências da lei chegam dentro de um contexto de graça, e não antes dele.[15] Essa ordem importa , a lei vem depois da redenção, como uma espécie de manual de instruções para viver dentro dessa nova realidade. Deus diz a Moisés: “Vocês viram o que fiz ao Egito e como os transportei sobre asas de águias e os trouxe para junto de mim. Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.”[16]


6.        O tabernáculo - estudiosos apontam que até a entrada voltada para o leste não é acidental — ela sinaliza um retorno ao Éden, um retorno à presença de Yahweh. O tabernáculo foi um primeiro passo em direção ao objetivo final da redenção: o povo de Deus habitando, sem obstáculos, em sua presença para sempre.[17]


Um Livro Inacabado


Muito mais poderia ser dito, cada história do Pentateuco nos dá mais um vislumbre do plano redentor de Deus. Mas mesmo essa visão panorâmica já mostra algo importante: como observa Alexander, o Pentateuco termina inacabado,[18] porque o plano redentor continua se desdobrando por todo o cânon.


Como minha amiga naquele grupo pequeno, muitos de nós perdemos a profundidade do evangelho porque nunca percebemos a história maior que o Pentateuco introduz. É um pouco como entrar numa sala de cinema vinte minutos antes do filme terminar, ainda dá para apreciar as cenas diante de si, mas algo no desfecho não se encaixa direito, porque faltou o começo.


Por isso, faço das palavras de Vaillancourt o meu convite final: leiam profundamente essa porção da Bíblia, façam suas próprias conexões com Cristo e com a vida cristã, e mergulhem nessa gloriosa e transformadora porção fundamental da preciosa palavra de Deus.[19]

Referências

1.        Ian J. Vaillancourt, The Dawning of Redemption: The Story of the Pentateuch and the Hope of the Gospel(Wheaton, IL: Crossway, 2022), 18.

2.        Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 18.

3.        Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 17.

4.        Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 19.

5.        Sandra L. Richter, The Epic of Eden: A Christian Entry into the Old Testament (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2008), 45.

6.        Richter, The Epic of Eden, 45.

7.        Ian J. Vaillancourt, “10 Things You Should Know about the Pentateuch,” Crossway, 6 de novembro de 2022.

8.        Vaillancourt, “10 Things You Should Know about the Pentateuch.”

9.        Richter, The Epic of Eden, 82.

10.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 86.

11.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 112.

12.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 128.

13.    J.G. Millar, “Land,” em New Dictionary of Biblical Theology, ed. T. Desmond Alexander e Brian S. Rosner (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), 623.

14.    T. Desmond Alexander, From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2022), 65.

15.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 131.

16.    Êxodo 19:4-6, Nova Versão Internacional (NVI).

17.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 154.

18.    Alexander, From Paradise to the Promised Land, 5.

19.    Vaillancourt, The Dawning of Redemption, 207.

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