O Primeiro santuário: descobrindo o DNA da humanidade
“Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro especial entre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”
(Êxodo 19:5–6).
Foi isso que o Senhor disse ao povo de Israel quando os libertou, com graça e poder, das mãos do Egito. Quando olho para esse texto, sou lembrada de que a salvação tem um propósito: fomos redimidos para servir a Deus como sacerdotes. Para quem talvez nunca tenha ouvido falar sobre isso, não se preocupe — à medida que formos tecendo essas pérolas juntos, espero que, até o final deste texto, você não apenas entenda, mas também aprecie e aplique essa verdade à sua própria vida.
A ideia do sacerdócio é confirmada por Pedro, que falou sobre isso à igreja, dizendo que somos “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus” (1 Pedro 2:9). Mas esses dois versículos não são os únicos lugares de onde podemos tirar essa conclusão, já que a Bíblia revela uma história abrangente de Deus que vai de Gênesis ao Apocalipse — o propósito de fazer do povo sua propriedade, um sacerdócio santo e real, não é revelado pela primeira vez em Êxodo, mas em Gênesis. Desde o momento em que Deus criou a humanidade, sua vontade expressa era habitar entre nós. O lugar onde ele habita não poderia ser menos que um santuário, que deveria ser mantido limpo e em ordem para que o Deus santo pudesse estar presente.
Éden: A Cidade-Templo de Deus
O tema da cidade-templo de Deus há muito tempo é discutido entre estudiosos — dois deles serão apresentados aqui: Desmond Alexander, em seu livro From Paradise to the Promised Land, e Gordon Wenham, em seu artigo “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story”. Comparar as duas visões vai nos ajudar a responder duas perguntas: Como esse tema impacta a humanidade antes e depois do pecado inicial de Adão e Eva? Onde está a esperança final para a restauração dessa Cidade-Templo?
Quero começar comparando as duas visões, que na maior parte do tempo são muito semelhantes e complementares. Os dois estudiosos apontam que:
· O Éden não era visto pelo autor apenas como um pedaço de terra, mas como o protótipo de um santuário, onde Deus habita e o homem o adora.[1] (ver Gn 2.15; Nm 3.7-8; 18.5-6)
· Há paralelos entre a história do Éden e os santuários israelitas posteriores, como Deus caminhando no jardim, assim como em meio ao tabernáculo[2] (ver Gn 3.8; Lv 26.12; 2 Sm 7.6-7)
· Há uma semelhança marcante entre a entrada leste do jardim e a do tabernáculo[3] (ver Gn 2.8; 3.24; Êx 27.13-16; Nm 3.38)
· Há também uma relação entre o candelabro (menorá) do templo e a árvore da vida.[4] (ver Gn 2.9; 3.22; Êx 25.31-40)
· O rio que flui do jardim alude à imagem da futura Jerusalém, com um rio fluindo do templo[5] (ver Gn 2.10; Ez 47.1-12; Zc 14.8; Ap 22.1-2)
· Materiais como ouro e ônix, mencionados em Gênesis, foram amplamente usados depois nos santuários e nas vestes sacerdotais.[6] (ver Gn 2.11-12; Êx 25.3-7; 28.9-12)
Além das características funcionais e físicas compartilhadas entre o templo e o jardim, há também evidências da intenção de Deus de construir uma cidade-templo quando analisamos o papel do homem. A primeira coisa notada pelos dois autores é que, se o Éden é visto como um santuário[7], então Adão deveria ser descrito como um levita. Sobre isso, Alexander explora um aspecto muito importante do papel sacerdotal de Adão e lança luz sobre ele. O autor argumenta que, ao ser humano, Deus deu status real (porque foram criados à imagem de Deus) junto com autoridade real.[8] Ele afirma que “no coração do plano divino para os seres humanos está a ideia de que eles deveriam governar a terra como vice-regentes de Deus.”[9]
A principal diferença entre os dois autores está na visão de Wenham sobre a relação entre a árvore do conhecimento do bem e do mal e a Torá (também conhecida como a Lei). O autor vê uma conexão entre a descrição da árvore como “agradável aos olhos, boa para se comer e desejável para dar entendimento” e o Salmo 19.8-9, que descreve a lei como aquela que “faz sábio o simples, alegra o coração e ilumina os olhos”. Sobre isso, acho que deveríamos buscar mais sustentação, mas, na minha opinião, essa conexão só faz sentido se vista pela lente do contraste: a árvore poderia dar um conhecimento à parte de Deus, o que abriu caminho para o pecado e a distorção da verdade, enquanto a lei revela o conhecimento cuja fonte é o próprio Deus, abrindo caminho para as bênçãos.
E agora? Como isso deveria impactar a forma como vivemos?
Esse tema nos ajuda a refletir sobre pelo menos três aspectos:
· O propósito original de Deus para a humanidade — Você não foi criado para o comum. Se a intenção original sempre foi viver na presença de Deus, servindo a ele e governando a terra como seus vice-regentes, podemos entender que a redenção vem para restaurar esse propósito original. Esse tema responde à pergunta de por que estou aqui, para que propósito Deus me salvou e o que eu deveria estar fazendo com isso. Allen Ross afirma que “a história da criação do homem e da mulher explica que os seres humanos têm a capacidade e a responsabilidade, dadas por Deus, de servir ao Senhor com integridade.”[10] Entender que fomos criados para um propósito maior eleva o propósito de tudo o que fazemos. Seja o que for que você faça — servir sua família, trabalhar profissionalmente em qualquer área, ou servir na sua igreja local — é um ato de adoração a Deus. Como redimidos em Jesus Cristo, o sagrado e o secular encontram um terreno comum, e devemos servi-lo com integridade. Como Paulo diz, “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens... vocês estão servindo é ao Senhor Cristo” (Colossenses 3:23-24). Seu trabalho diário é uma vocação sagrada.
· O valor das pessoas — Apesar da queda, é importante destacar que a humanidade manchou a imagem divina, mas nunca a perdeu.[11]Em vista disso, pensando em qualquer tipo de interação social, nossa postura diante dos outros deve ser de amor, porque as pessoas, de modo geral, são todas reflexos da glória de Deus em algum grau. Longman argumenta que “o pecado não erradica a imagem, e nunca devemos esquecer isso ao considerarmos quem nós somos e quem são aqueles com quem interagimos.”[12]
· Somos a habitação de Deus — Quando pensamos na cidade-templo de Deus, conseguimos entender o que Paulo estava dizendo sobre a igreja em Efésios: “nele vocês também estão sendo edificados juntamente, para ser habitação de Deus por meio do Espírito” (Ef 2.19-22). Agora, tendo depositado minha fé em Cristo e recebido o Espírito Santo em mim, Gênesis nos dá orientação sobre como guardar e proteger o próprio coração contra as ciladas do inimigo, para que possamos trazer shalom (o estado harmônico e original da criação) para tudo o que fazemos e para todos com quem nos relacionamos, como o bom perfume de Deus. Walton diz assim: “Embora o restante da criação espere junto conosco pela libertação final dos efeitos do pecado (Rm 8.18-21), somos os herdeiros do Jardim do Éden e, portanto, do mandato do Éden. O que isso exige de nós?”[13] Acredito que, em resumo, isso é uma vida consagrada ao Senhor.
Onde está a esperança final para a restauração da Cidade-Templo?
A esperança final para a restauração é revelada em Apocalipse 21-22. Deus vai realizar o seu propósito na restauração definitiva da Nova Jerusalém. Um dia, a Jerusalém terrena e a celestial serão unidas, e completaremos nossa jornada do Éden até a Nova Jerusalém.[14] Sobre essa restauração futura, Alexander afirma: “Embora nossa experiência futura de vida tenha algo em comum com o presente, ela também será radicalmente diferente. Tudo o que atrapalha a experiência de uma vida plena será, um dia, totalmente erradicado. Só então, e apenas então, conheceremos a vida como Deus pretende que ela seja.”[15]
Enquanto esperamos por nossa restauração plena, minha oração é que a consciência do propósito de Deus para a humanidade acenda em nós o desejo de adorá-lo em espírito e em verdade — um desejo de cuidar da criação e dos outros de uma forma que mostre como será a vida eterna ao lado dele.
Bibliografia
Alexander, T. Desmond. From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology. Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2008.
Alexander, T. Desmond. From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch. Grand Rapids, MI: Baker Academic, a division of Baker Publishing Group, 2022.
Longman, Tremper, III. Genesis. Edited by Tremper Longman III. The Story of God Bible Commentary. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2016.
Ross, Allen P. Creation and Blessing: A Guide to the Study and Exposition of Genesis. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998.
Shimoff, Sandra R. “Gardens: From Eden To Jerusalem.” Journal for the Study of Judaism in the Persian, Hellenistic, and Roman Period 26, no. 2 (1995): 145–55. http://www.jstor.org/stable/24659588.
Walton, John H. Genesis. The NIV Application Commentary. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001.
Wenham, Gordon J. “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story.” Proceedings of the World Congress of Jewish Studies (1985): 19–25. http://www.jstor.org/stable/23527779.
[1]Gordon J. Wenham, “Sanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story,” Proceedings of the World Congress of Jewish Studies (1985), 19.
[2]T. Desmond Alexander, From Paradise to the Promised Land: An Introduction to the Pentateuch (Grand Rapids, MI: Baker Academic, a division of Baker Publishing Group, 2022).
[3]Alexander, From Paradise, 14.
[4]Alexander, From Paradise, 14.
[5]Alexander, From Paradise, 14.
[6]Alexander, From Paradise, 14.
[7]Wenham, “Sanctuary,” 21.
[8]Alexander, From Paradise, 15.
[9]Alexander, From Paradise, 15.
[10]Allen P. Ross, Creation and Blessing: A Guide to the Study and Exposition of Genesis (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998), 118.
[11]Tremper Longman III, Genesis, The Story of God Bible Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2016), 42.
[12]Longman, Genesis, 43.
[13]John H. Walton, Genesis, The NIV Application Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001), 195.
[14]Sandra R. Shimoff, “Gardens: From Eden to Jerusalem,” Journal for the Study of Judaism in the Persian, Hellenistic, and Roman Period 26, no. 2 (1995): 155.
[15]T. Desmond Alexander, From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology (Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2008), 192.


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